Sa Pa (Vietnã) – 3 dias pelas montanhas do extremo norte

O norte do Vietnã, mais precisamente nas fronteiras com a China e o Laos, é como se fosse um país a parte. Habitado pelos Hmong, populações nativas de culturas e tradições totalmente diferentes do resto do país, já habitavam essa região muito antes da nação vietnamita ser consolidada. Um trem cinquentão reformado, importado de uma Inglaterra que o descartou há algumas décadas, faz o trajeto noturno, em sete horas, de Hanói até a estação de Lao Cai. De lá, uma van fretada pelo seu hotel vai te levar até Sa Pa.

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Velho vagão de trem inglês reformado faz o trajeto entre Hanói e Lao Cai.

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Trabalhadores pontilham as fazendas verticais de arroz que desenham as montanhas de Sa Pa.

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Os vales parecem infinitos mas, quando menos se espera, você já caminhou até o topo da montanha seguinte.

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Vista da sacada do chalé que passei a noite em Sa Pa.

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1) Dia 1 – Sa Pa e Cat Cat Village
Fazendo fronteira com a China, essa é a região mais ao norte do Vietnã. Fica numa altitude elevada, em meio a montanhas que prendem a neblina por boa parte do dia. Se o resto do Vietnã é quente como a Amazônia, em Sa Pa você pode precisar de um casaco. O chalé que eu fiquei era muito bom, com lareira nos quartos e terraços de frente para as cordilheiras.

Na cidade de Sa Pa, a economia já gira bastante em torno do turismo mas, nas vilas mais afastadas, ainda há várias comunidades tradicionais vivendo apenas de plantio e agricultura.

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Mulheres e crianças da tribo Black Hmong, a maior população nativa da região.

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Praça central de Sa Pa.

A primeira caminhada é curta, mas o vilarejo é um dos mais interessantes. É a vila de Cat Cat, a mais próxima. Ela é ocupada pelos Black Hmong, uma das dezenas de tribos indígenas que ainda sobrevivem no país. Embora não pareça, a renda desses trabalhadores é extremamente baixa. Isso só não fica visível porque, por viver da subsistência, o dinheiro não é o bem mais valorizado por essa população.

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Búfalos passeiam tranquilamente na pela Cat Cat Village.

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O interessante é que, ao se visitar comunidades como essas, o comum que se enfoque em tudo que as pessoas não possuem. Mas basta olhar so seu redor e ver como a vista alcança longe. Assim, é muito fácil ter uma percepção de tudo que eles tem. É claro que, sob essas condições,
o acesso a educação e ao consumo é muito difícil, mas a forma como estão integrados e conectados a natureza… isso é algo que quem vive nos ambientes competitivos das cidades nunca vai compreender.

Este é o último de nove vídeos da série que fizemos sobre o Vietnã. Todos foram gravados em Maio/2015, em uma viagem de 30 dias que percorreu o país de sul a norte. Assista também aos outros episódios:

Vietnã Ep.01 – Delta do Mekong – Os mercados flutuantes de um dos maiores deltas do mundo.
Vietnã Ep.02 – Saigon (Ho Chi Minh City) – A Belle Époque francesa e a Guerra do Vietnã.
Vietnã Ep.03 – Saigon 2 – O nome já mudou para Ho Chi Minh City há 40 anos, mas você vai acabar chamando de Saigon – a frenética metrópole do sul dos dias de hoje.
Vietnã Ep.04 – Dalat – A Campos do Jordão do Vietnã.
Vietnã Ep.05 – Hoi An – Chapéus de cone, bicicletas velhas e lanternas de papel – a Ásia que você estava procurando.
Vietnã Ep.06 – Hue – A cidade-sede do Vietnã Imperial.
Vietnã Ep.07 – Hanói – O que fazer em 48 horas na capital vietnamita.
Vietnã Ep.08 – Ha Long Bay – Como é fazer o cruzeiro de três dias.

2) Dia 2 – Trekking até Ta Van
No segundo dia a caminhada é mais longa. São cerca de vinte quilômetros entre rios e montanhas moldadas pelas plantações verticais de arroz. Homens trabalham com os búfalos e as mulheres fazem a colheita, muitas vezes carregando bebês nas costas. O ambiente é calmo, silencioso e, entre uma rajada de vento e outra, um búfalo ou lagarto aparece pra dizer oi.
Muitos viajantes que eu encontrei e conversei, ao longo dessa viagem pelo Vietnã, me desencorajaram a visitar Sa Pa : “- é muito turístico, perda de tempo”. Em primeiro lugar, eu sou turista. Em segundo, acho que quem pensa que um cenário desses é perda de tempo, ou não passou por aqui, ou não ficou por tempo suficiente.

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As vistas durante a caminhada de seis horas do segundo dia são absolutamente indescritíveis.

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A cannabis é amplamente utilizada para confecção de roupas e para chás medicinais – só é proibido fumar.

Passei a segunda noite em Ta Van, no que eles chamam de homestay, que é um hotelzinho simples, com colchões no chão, em que o proprietário mora e recebe os visitantes.
Havia mais dois casais que também estavam pela região e passamos a noite bebendo vinho de arroz e jogando baralho.

 

3) Dia 3 – Sunday Market de Bac Ha
Dá pra fazer tudo sozinho, mas ter um facilitador durante essa viagem compensa demais. Eu queria muito ir ao mercado de Bac Ha, que acontece só aos domingos, e a Mai, sorridente guia que me acompanhou, ajeitou minha vida para que a gente saísse do homestay cedo o bastante pra chegar em Sa Pa na hora de pegar o ônibus até Bac Ha. Se o trajeto do segundo dia teve as paisagens mais lindas, o terceiro é uma imersão cultural como em nenhum outro lugar do Vietnã.

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A cidade de Bac Ha ganha vida com o mercado dominical.

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O equivalente a quarenta cigarros (sem filtro) em um trago. Não consegui andar por uns dois minutos depois de experimentar.

Bac Ha fica inteira colorida porque, além da parte comercial, este também é o evento social da região. Todos se vestem com suas roupas mais chamativas para verem e serem vistos. O mercado não tem limite físico. Há um galpão principal, mas as ruas ao redor redor também ficam tomadas de tendas e há até uma setorização: há a parte de comida, a de tecidos, animais e, claro, o salão de beleza.
Sa Pa é uma região viva e encantadora. Vendo a forma como a transformação ocorre diante dos nossos olhos, e impossível imaginar como esse lugar estará nos próximos 10 ou 20 anos. A transformação é evidente, mas a natureza continua abundante. Quem visitar a região, vai encontrar um lugar onde tudo é fácil e todos querem ajudar.

 

Para chegar lá e aproveitar Sa Pa ao máximo:
– O que a região tem de especial, mesmo, são os cenários bucólicos das montanhas. Algumas agências vendem o passeio de uma noite mas, como leva de 6 a 8 horas para chegar de
Hanoi, em um dia você vai apenas conhecer a cidade de Sa Pa, que é basicamente a zona hoteleira da região.
– Dá pra fazer independente, mas pode sair mais caro. No Kangaroo Caphe, custa aproximadamente US$ 180,00 por pessoa, com alguns cafés da manhã inclusos e um
jantar caseiro fantástico preparado pela proprietária do homestay. Além disso, sem uma guia você se perderá facilmente pelas trilhas das montanhas.
– Há como ir de ônibus a partir de Hanói, mas a viagem de trem, em velhos vagões ingleses que parecem querer descarrilar a todo instante, é muito mais divertido.

 

Texto: Tiago Caramuru

Imagens: Tiago Caramuru

Edição: Tiago Caramuru / Anderson Spinelli

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Sobre o Autor
- Desde que descobriu que viajar é possível, viciou. Muita disciplina financeira, um pouco de sorte. Nada como uma viagem após a outra. Escreve o blog Esvaziando a Mochila desde 2009. Publicou, em 2014, o trabalho fotográfico Rumo às Primeiras Mil Viagens, compilação de 100 retratos e paisagens feitos pelo mundo, durante quatro anos.