Montevidéu (Uruguai) – O que fazer em dois dias

Eu sempre imaginei Montevidéu como um lugar frio, desses na temperatura perfeita pra usar uma boa jaqueta, fazer pausas para o café, tomar vinho e comer bem. E eu acertei! É gostoso se surpreender com um lugar, mas também é bacana quando ele é exatamente o que a gente imagina.

Você chega no Uruguai pelo modernoso e eficiente Aeroporto Internacional de Carrasco. Saindo de lá, são cerca de quarenta minutos até Montevidéu, capital do Uruguai e onde moram metade dos três milhões de habitantes do país. A cidade é pequenina, mas não se engane pelas distâncias curtas – o Uruguai é um lugar pra levar a vida sem pressa. Em especial, Montevidéu, que tem uma aura intelectual e politizada. Berço de personalidades como Eduardo Galeano e José Mujica, a capital é um centro de debates e filosofia. A atmosfera provinciana engana quem não vai mais a fundo pra perceber que o Uruguai é um dos países mais progressistas do mundo. Não há constrangimento quando se permite ter a inteligência da dúvida e do questionamento.

Plaza de la Independencia, o centro de gravidade de Montevidéu.

Teatro Solís, um dos mais antigos do mundo, construído em 1856 .

Parrilla! Carne, carne e mais carne… mas também tem um pimentão ali pros vegetarianos.

Montevidéu é muito familiar e os uruguaios recebem os brasileiros de coração aberto. Eu me senti mais estrangeiro no Pantanal ou na Amazônia, por exemplo. Mesmo que você já tenha ido a cidade, garanto que aqui vão aparecer coisas que você não fez! Lá vai:

1) Centro e Ciudad Vieja

Pelo calmo centro histórico de Montevidéu, mapeie sua andança para começar com uma longa caminhada pela Avenida 18 de Julio, a principal artéria da cidade e onde está o mood mais europeu. A avenida termina na Plaza de la Independencia. Ali, está o Palácio Salvo, o mais reconhecível marco de Montevidéu. Em seu interior, se encontra o pequenino e super interessante Museu do Tango. Sim, o tango também é uruguaio. Há diversas polêmicas sobre a nacionalidade do estilo musical e até do próprio Carlos Gardel, maior nome do gênero. A explicação é que o tango, antes uma dança vulgar, cresceu nas zonas portuárias de Montevidéu e Buenos Aires, numa época em que só eram frequentadas por homens em busca de companhia paga. Como as capitais da Argentina e do Uruguai são muito próximas – aproximadamente 40 minutos por barco – , o intercâmbio sempre foi intenso. Entre tantas dúvidas, o que os uruguaios tem certeza é de que La Cumparsita, a canção de tango mais famosa já escrita, foi escrita no país. No museu, você terá a chance de ouví-la direto de uma vitrola, em um ambiente que replica o bar onde a canção foi criada.

Palácio Salvo.

Plaza de la Constituición. A Plaza de la Independencia é a principal, mas esta aqui foi a primeira.

Quinquilharias dos mercados de pulga no centrão de Montevidéu.

Saindo dali, vá bem para o meio da Plaza de la Independecia, tire uma selfie com o General Artigas domando seu cavalo e, no subsolo, visite o memorial onde estão seus restos mortais. Militar nacionalista, ele é descrito pela história como o principal personagem da independência uruguaia, conquistada com a expulsão dos espanhóis em 1825.

Você veio pelo lado mais agitado da cidade, passando pelo movimento da Avenida 18 de Julio e chegando a esta praça gigantesca, que é o centro gravitacional de Montevidéu. Agora, é hora de cruzar a porta da Ciudad Vieja e percorrer o Paseo Sarandí, uma rua pedestrianizada que leva até a nostálgica Plaza de la Constituición, primeira praça da cidade. Pelo caminho, várias lojinhas tradicionais. É tudo seguro e vale  a pena visitar algumas da mais antigas, como a livraria Más Puro Verso.

Mercado del Puerto – mais uma praça de alimentação que um mercado.

Centro de Montevidéu, à noite.

Não deixe de passar pelo Mercado del Puerto que, apesar de ser muito mais uma praça de alimentação que um mercado, ainda tem seu charme durante a hora do almoço, quando as grelhas inclinadas preparam a santa parrilla de cada dia.

Preço: $U 150,00 (aprox. R$ 15,00) para o Museo do Tango, pagos na recepção. Todas os outros lugares mencionados são públicos.

2) Bodega Juanicó

Não se pode gastar uma vida sem passar ao menos uma longa tarde degustando vinhos. E no Uruguai, dá pra fazer isso a apenas quarenta minutos de Montevidéu, na bodega mais antiga e premiada do país, a Bodega Juanicó. Nota: bodega é vinícola – não tem nada a ver com bar barato ou podrão pra matar a fome com um pf.

A paisagem já é completamente diferente. O clima rural predomina nos jardins e parreiras que cercam os galpões onde estão as instalações da bodega – os mais antigos datam de 1830. Uma visita guiada vai te levar para conhecer um pouco dos processos de produção. A adega subterrânea, fria e cheia de barris e garrafas com a parte mais nobre da produção, é o highlight do tour. Porém, não é o mais gostoso, que ainda está por vir.

Galpaão da Bodega Juanicó, a vinícola mais antiga do Uruguai.

Parreiras a perder de vista.

Adega subterrânea onde os vinhos são envelhecidos e armazenados.

Quem acompanha?

A parrilla,é lógico.

Chile e Argentina tem mais fama, mas a tradição vinícola do Uruguai não fica pra trás. Dá pra comprovar isso claramente na harmonização feita na Juanicó. O almoço é servido na sede da vinícola, um casarão colonial aconchegante, com móveis de madeira e aquecido por lareiras. Os frios e embutidos dão a partida com um delicioso vinho branco. E eu ainda poderia estragar sua surpresa dizendo que o ponto alto é a parrilla uruguaia, cheia de carnes suculentas, acompanhada do encorpadíssimo tinto Don Pascual. Mas vou deixar que você mesmo descubra isso quando estiver lá.

Preço: aproximadamente R$ 300,00 por pessoa, com transporte ida/volta, visita guiada, almoço e harmonização. Duração total de quatro horas. Reservas pelo próprio site da vinícola: juanico.com .

3) Teatro Sobre Ruedas e Bar Facal

Nas noites de sábado e domingo, bem a frente do maravilhoso Teatro Solís – tipo o Municipal de Montevidéu – o Coche Teatro estaciona e espera o público subir. Até aí, tudo exatamente como um ônibus normal. Você entra, escolhe um assento e pronto. Uma vez que o veículo começa a se mover, os personagens da peça Barronegro começam a se revelar. Desconfie de quem estiver ao seu lado porque pode ser um ator. E há aqueles tipos que a gente encontra diariamente na rua: o bêbado, o falastrão, a velhinha, o machão… tudo pra que a gente possa se identificar imediatamente. Quem não fala espanhol fluente pode perder uma coisa ou outra, já que o sotaque uruguaio é bem carregado e cheio de gírias. Mas não é nada que prejudique a diversão e os momentos surpreendentes, como o que… não, vai sem spoiler mesmo. Só dá pra adiantar que, cedo ou tarde, você vai acabar participando do causo. Vai sem medo porque a peça está em cartaz há nada mais nada menos que 26 anos e todo mundo que foi ver, voltou. E chegue à bilheteria do Teatro Solís com antecedência para garantir seu ingresso. São cerca de 40 lugares para cada sessão.

Após a noite cultural, dá pra terminar no Bar Facal, em uma esquina animada e movimentada da 18 de Julio. Peça um chivito, tradicional sanduíche da baixa gastronomia uruguaia. Há de vários sabores, mas os que tem carne são os melhores. A não ser que você seja vegetariano, escolha o de lomo. Batata frita e chopp acompanham.

Barronegro: peça de teatro encenada dentro de um ônibus.

A peça é uma dessas tragicomédias que causam identificação imediata com algum dos personagens.

Quem é ator? Quem é platía? Cedo ou tarde, todo mundo está na mesma!

Sabe o Cervantes, lá no Rio? Ou o Bar do Estadão, em São Paulo? Este é o Facal, em Montevidéu.

Preço: $U 400,00 (aprox. R$ 40,00) . Ingressos a venda na bilheteria do Teatro Solís.

Onde ficar: Em Montevidéu, a hospedagem escolhida foi o Regency Way Montevideo . Um quatro estrelas com localização conveniente e agradável em Pocitos, um dos melhores bairros da cidade. No entanto, você precisará de transporte público ou compartilhado para fazer os passeios. Diárias por cerca de R$ 225,00 .

Onde comer: Dos três restaurantes que expeimentamos, o Francis ( Luis de la Torre 502 )foi o mais gostoso. Os risotos são uma especialidade da casa e a carta de vinhos e ótima. O Garcia ( 1587 Avenida. Alfredo Arocena ), mais tradicional, faz questão de manter a mesma atmosfera há 50 anos. Comapartilhe as ótimas entradas e vá de carne com chopp – é ótimo para um almoço longo. Já o Facal ( Av. 18 de Julio 1249 ), uma isnituição e ponto turístico, é uma embaixada da baixa gastronomia. Excelente lugar para provar o chivito, sanduíche para matar a fome antes ou depois de esticar a noite.

Dinheiro e idioma:Um Real (R$) vale aproximadamente 10 Pesos Uruguaios ($U). É a forma mais fácil de converter. Cassa de câmbio aceitam reais e caixas eletrônicos são seguros para sacar em moeda local. Os uruguaios são muito receptivos e calorosos, muitos deles dispostos a arriscar um bom português. Com boa vontade, todo mundo se entende.

Nós visitamos o Uruguai a convite do Uruguay Natural – Ministério do Turismo do Uruguay, com apoio do Seguro GTA.

Texto: Tiago Caramuru
Imagens:Tiago Caramuru
Montagem: Tiago Caramuru / Anderson Spinelli
Edição:Tiago Caramuru

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Sobre o Autor
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Desde que descobriu que viajar é possível, viciou. Muita disciplina financeira, um pouco de sorte. Nada como uma viagem após a outra. Escreve o blog Esvaziando a Mochila desde 2009. Publicou, em 2014, o trabalho fotográfico Rumo às Primeiras Mil Viagens, compilação de 100 retratos e paisagens feitos pelo mundo, durante quatro anos.