Caracol e Placencia (Belize) – Um roteiro pelo país mais secreto do Caribe

O destino é tão inusitado, que é bom irmos bem do começo: o Belize é um país! Fica na América Central, logo abaixo do México, espremido pela Guatemala, de um lado, e o mar do Caribe, de outro. São 300 km de litoral, cada um deles embelezado por milhares de atóis. É uma maravilha quase secreta – foi terra dos Maias, viveu tensões durante a colonização inglesa e, hoje, assumiu de vez a personalidade caribenha despreocupada.

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Cenários paradisíacos que a segunda maior barreira de corais do mundo pode proporcionar.

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Ruínas maias do sítio arqueológico de Caracol (oficialmente Chiqibul National Park)

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Silk Caye: ilhota da costa sul utilizada como base para mergulhos na região.

Numa época em que o Caribe é vendido como um parque de diversões, o Belize é uma alternativa cheia de autenticidade: os hotéis de rede ainda não chegaram, os navios de cruzeiro não aportam e sequer há McDonald’s ou Burger Kings. Apesar de encostado na Península de Yucatán, a parte mais turística do México, se mantém aventureiro e selvagem. De um lado, florestas tropicais recuperam seu espaço por entre ruínas maias. Do outro a divesidade marítima se exibe pelas águas transparentes que formam a maior barreira de corais do Caribe e segunda maior do mundo. A visibilidade e cor do mar fazem do Belize um paraíso dos esportes aquáticos – o mergulho, em especial. Na prática, isso tudo significa que o mar, aqui, é mais azul.

Antes de ir para qualquer viagem, eu sempre pesquiso sobre o lugar. Como eu ainda não sabia o roteiro que o Travel Belize tinha preparado para essa, fiz uma pesquisa geral sobre o país e, logo de cara, o Google mostrou o Blue Hole, um círculo de alto mar no meio das águas rasas do litoral belizenho; e a Ilha de San Pedro, que é a Isla Bonita da música da Madonna.

Desembarcando no aeroporto, o Miguel, assessor do Travel Belize e guia durante a viagem, recebeu o grupo perguntando: “O que vocês já sabem sobre nós? Blue Hole e San Pedro? Esqueçam! Nós vamos conhecer o Belize de verdade!”

Chegada na Cidade do Belize e transfer para San Ignacio/Santa Elena
Do Aeroporto Internacional da Cidade do Belize até San Ignacio são cerca de duas horas. No caminho até lá, dá pra ver algumas características típicas de qualquer lugar do Caribe, como a falta de aglomerações urbanas e a quantidade vasta de espaço entre uma coisa e outra. Seja em bairros residenciais ou no comércio, tudo é bem espalhado. San Ignacio e Santa Elena são separadas por um rio estreito mas, na prática, são a mesma cidade. É uma vila interiorana e boêmia, quase na fronteira com a Guatemala e, a grande razão para estarmos lá, é que ela é a base mais conveniente para quem vai visitar as ruínas maias de Caracol, que fica a duas horas de distância.

A primeira tarde/noite foi só pra descansar. Afinal, entre vôos e conexões, são mais de 15 hora até o Belize. A gente chegou e foi pro Midas, um hotel auto-proclamado resort que era bem simpático: o café da manhã tinha que ser solicitado na noite anterior para que ficasse pronto a tempo. A piscina tinha luzes e música alta para “animar”. Nada mais encantador que o glamour que vira humor.

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Barbecue do The Crave House of Flavour, em San Ignacio.

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Truta na brasa no The Crave, em San Ignacio.

O Miguel, então, nos levou em seu carro até o Crave House of Flavour. Um restaurante pequeno e escondido, facilmente confundido com uma casa onde se estivesse fazendo um churrasco no quintal. Sentamos no sofá do lado de fora e fomos atendidos pelo chef e proprietário Alejandro. Ele deu as opções da noite pessoalmente: carne, peixe ou frango. Fui de carne bem passada e estava espetacular! Adorei o clima despretensioso com o prato farto e bem preparado, acompanhado de aspargos e purê de batata.

Ruínas Maias de Caracol
Os belizenhos dizem até que circulando pelo interior do Belize, é mais fácil trombar com uma ruína que uma casa. Há tantos vestígios arqueológicos espalhados pelo país, que as excavações sequer tem data para terminar. Assim como o México foi casa dos astecas e o Peru, dos incas, o Belize foi um dos principais pontos da ocupação e florescimento dos maias. No auge, essa grande civilização chegou a ter um milhão de habitantes ocupando a área do país – hoje, o Belize tem trezentos mil.

No sítio arqueológico de Caracol está a maior evidência da grandeza dos maias no Belize: um conjunto de pirâmides de mais de 1500 anos. Tudo isso praticamente só pra você – a falta
de visitantes faz a energia que emana nas ruínas se ainda mais forte. O destaque é a Caana, ou Sky Place (ou Sky Palace), a maior dessas pirâmides. Pode-se subir os degraus até o topo, que fica bem acima das copas das árvores, e de onde pode se pode avistar a Guatemala. Caracol rivalizou por muito tempo com Tikal, maior cidade maia que já existiu e que, hoje, fica na Guatemala – e há vários indícios de guerras entre elas.  É difícil chegar aqui, mas o trajeto é lindo e a recompensa é gigantesca. Contrate um tour e em, vez de se preocupar com a estrada, gaste seu tempo se intrigando com as florestas que você vai ter que cruzar até chegar lá. Preço: de US$ 65,00 a US$ 95,00 por pessoa, incluindo o transfer (o trajeto é extremamente traiçoeiro e fazê-lo por conta própria pode não ser uma grande idéia).

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Caana, ou Sky Place, na língua dos maias.

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Suba todos os degraus para chegar ao topo dos mais de 40 metros dessa estrutura milenar, que ainda é uma das maiores de todo o Belize.

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Lá no fundão está a Guatemala, onde fica Tikal, grande cidade maia que rivalizou por muito tempo com Caracol.

Voltamos para San Ignacio por um caminho diferente e paramos na Barton Creek Cave. No receptivo, almoçamos a melhor comida da viagem: um arroz com feijões fritos, acompanhado de guisado de frango. Era simples, modesto e saborosíssimo – a comida de todos os dias dos belizenhos, sem aquele monte de enfeite para agradar gringos.

Mais tarde, fomos finalmente às cavernas de Barton Creek. Elas são formações geológicas dentro de cavernas alagadas, acessadas através de barcos simples, com três lugares e uma lanterna. Sim, lá dentro é completamente escuro e, quanto mais pra dentro, maior o breu. Há um momento fantástico em que o guia pede silêncio a todos e apaga as luzes. A oportunidade de escutar o maravilhoso som do silêncio. US$ 65,00 (sem transporte, mas dá pra combinar no caminho de volta de Caracol).

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Três pessoas por caiaque, sendo que o da frente leva a lanterna e o do fundão rema.

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Barton Creek Cave: breu total dentro da caverna alagada.

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Arroz, feijão e guisado de frango! As outras refeições da viagem foram ótimas mas, esse almoço no receptivo da Barton Creek foi o melhor! A comida do dia-a-dia dos belizenhos.

De volta a San Ignacio, escolhemos para nossa última noite na cidade o Guava Limb Café. O que dá vida para a noite da vila são os barzinhos estilosos e em meio a tantas opções, o Guava Limb é o favorito do locais e dos visitantes há tempos. Casarão colonial inglês com paredes coloridas, grandes sacadas e ventiladores no teto. Toda a atmosfera que se espera do Caribe! Os pratos são um tanto quanto americanizados mas, as entradas, em especial, são saborosíssimas. Os rolinhos primavera de camarão frito, com molho de goiaba e amendoim, acmopanhados de uma Belikin, a cerveja local, caíram muito bem para encerrar a estada na cidade.

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Guava Limb: jeitão de rancho do interior e ótimos petiscos pra acompanhar uma cerveja.

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Eu fui no rolinho primavera de camarão frito.

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E um cheesecake pra finalizar!

Bocawina National Park
A manhã seguinte foi dia de parque nacional! Mais de 60% do território do Belize é coberto por florestas tropicais e eu tinha que me embrenhar em alguma delas! No Bocawina National Park, é hora de um pouco mais de ação. Você se enfia nesta mini-amazônia, de árvores altíssimas e copas espessas, fazendo tirolesa e rapel. São sete tirolezas com freio manual e um rapel – algumas mais rápidas, outra mais contemplativas, mas todas cortando uma paisagem absurdamente linda e a assistência dos guias que cuidam d todo o aparato de segurança.

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Sete tirolesas e um rapel pra passar uma manhã bem divertida no Bocawina National Park.

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Dá pra visitar o Bocawina National Park no caminho entre San Ignacio e o litoral sul do Belize. Foi exatamente o que fizemos. Preço: US$ 5,00 para entrar no parque + US$ 65,00 pelo circuito de tirolezas + rapel.

Placencia
Agora sim, cara a cara com o Mar do Caribe! Deixamos a boemia de SanIgnacio/Santa Elena
e viemos saborear a vista e vida a beira mar de Placencia, cidade litorânea low profile.

Quando se chega a Península de Placencia, o mood caribenho é arrebatador. Antes de atingir a
cidade de mesmo nome, o mar já tinha me hipnotizado. Ainda fizemos uma parada em Hopkins, vila vizinha, porque fizemos questão de assitir uma apresentação do Warassa Drumming School, uma escola de percussão para crianças e adolescentes da vila. Inclusive, o principal objetivo da escola é a inclusão social e disseminação da cultura Garifuna, gerada pela enorme miscigenação da população nativa, colonizadores europeus e escravos africanos, ao longo dos últimos 400 anos de história do Belize.

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Apresentação do Warassa Drumming School, em Hopkins.

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A cultura Garifuna celebra a diversidade das misturas do Belize ao longo dos seus 400 anos anos de história.

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Hopkins, Belize.

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Píer do Robert’s Grove Resort, em Placencia.

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Canse bastante pela manhã! Assim, de tarde você não vai ter peso na consciência por se jogar nessa rede do Robert’s Grove Inn, em Placencia.

Enquanto em outros lugares do Caribe você pode acordar e ir dormir com springbreakers barulhentos e vomitando por todo lado, aqui a natureza e a cor do mar ficam 100% responsáveis por arrancar os “Wow’s” e “Olha isso!” da galera.

No Robert’s Grove Inn, eu tive a melhor estada da viagem. Não pela pompa mas, pelo contrário – pela personlidade genuína do hotel. Tomei café da manhã no pier, dormi na rede da sacada olhando pro mar, assisti pelicanos caçando e tomei muito rum no agradabilíssimo deck externo do restaurante. Tudo isso enquanto lia as mensagens de “Eu te odeio” no What’sApp. O turismo em Placencia é verde, sustentável, menos dependente de mimos de hoteizões e muito mais ligado a natureza.

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Deck externo do Robert’s Grove Inn. Placencia, Belize.

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Como o Belize é o paraíso pra quem gosta de água, eu tinha que me preparar para a expedição de mergulho que viria no dia seguinte. Tudo pra se cansar muito e, depois, relaxar em uma cabana de praia com teto de palha.

Silk Caye
O Splash Dive Center organiza expedições de mergulho completas, desde um dia até uma semana inteira. Utilizando como base a Silk Caye, uma ilhota a duas horas de Placencia, por lancha rápida, eu passei um dia completo com eles. Fiz duas sessões de mergulho e uma de snorkel. Como não tenho a licença para mergulhar, uma instrutora me acomopanhou o tempo inteiro, mas sem nunca me limitar ou dizendo o que eu poderia fazer ou não.

Se você nunca mergulhou, nao tem problema, o batismo (modalidade para não certificados) é muito seguro e eles só partem com você para baixo d’água quando depois que você já se familiariza com o equipamento.

Cortornar os corais em busca dos animais é um exercício de calma e relaxamento. O único cuidado é: você pode acabar viciando nessa brincadeira cara! Além do que, as águas claras do Belize podem te deixar muito mal acostumados: dá pra ver tudo! Tartarugas gigantes, tubarões-lixa, arraias… todas as espécies circulando livremente e em plena harmonia, uma com as outras e com os humanos. Como a presença de pessoas é coisa recente, especialmente nas ilhas do sul, os animais não se sentem ameaçados. É como a Dinia, minha instrutora, me alertou quando ainda estávamos no barco: essa a cereja do bolo de uma viagem ao Belize. Preço: US$ 275,00 com instrutor / US$ 175,00 sem instrutor. O valor inclui todo o equipamento, transporte até a ilha e almoço.

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Partida da lancha do Splash Dive Center a partir do porto de Placencia.

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Dezenas de animais, todos gigantes e misturados, convivendo totalmente de boas!

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Os tubarões-lixa podem atingir mais de três metros, mas são inofensivos.

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Nossos dias no Belize foram fascinantes! Há pouco mais de um mês, pouco havíamos escutado sobre o país e sequer sabíamos localizá-lo no mapa. Um destino essencial para quem está procurando lugares únicos e sem generiquices. Vendo o mundo como ele funciona hoje, é muito claro que tudo isso pode mudar rapidamente. Não deve demorar até colocarem o país se industrializar e ser embalado. No entanto, hoje, escolher o Belize como seu próximo destino é como fazer as compras na venda da esquina em vez de ir ao super mercado. A conexão é real e os sorrisos são verdadeiros e a gentileza importa mais que qualquer bom serviço.

Como chegar e quem leva: a Copa Airlines faz a rota mais prática e confortável, ligando sete capitais brasileiras ao Panamá e, posteriormente, levando a Cidade do Belize, no Belize. Os vôos partem diariamente de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife e Manaus. Transporte é algo fundamental: as concentrações urbanas são poucas, há muito espaço sobrando e tudo é espalhado e dependente de carro. Ou se aluga um carro – bom, porque há estradas em más condições de estrutura e sinalização -; ou contrata-se uma agência para fazer os transfers, tanto de aeroporto quanto para os passeios.

Quanto custa: Para se mover dentro do país, nós utilizamos o serviços da Yute Expeditions. Eles atendem em várias partes do país. Alugar um carro também é uma boa idéia para ter mais independência. No entanto, pesquise a condição das estradas por onde planeja circular – a maioria delas está em bom estado, mas as que não estão são de baixíssima qualidade. À primeira vista, alguns preços do Belize podem assustar, mas olhe com mais calma: as redes de hotéis não chegaram por aqui, o que dá personalidade única a cada hospedagem; as multidões não existem, os restaurantes são quase todos familiares; as praias são limpas e os animais estão soltos. Dá pra ter mais luxo que isso?

Onde ficar em San Ignacio/Santa Elena: O Midas Resort é um hotel para que está longe de ser ruim – e mais longe ainda de ser um espetáculo. Passei duas noites lá e dá pra dizer sem erro que a cama é bem limpa e confortável. Talvez, por se auto-proclamar um resort, possa causar certo estranhamento, mas a verdade é que o feeling cubano, em pleno Caribe inglês, é bem divertido. Ainda mais pela tarifa super amigável: cerca de US$ 70,00 / noite.

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Midas Resort: pretensão inglesa, charme cubano.

Onde ficar em Placencia: O Roberts Grove Inn tem quartos espaçosos, com sacadas equipadas com redes e uma atmosfera deliciosa por ser pé na areia. Não é pra quem procura luxo, mas é cheio de personalidade.

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O píer do Robert’s Grove Inn é atraente de qualquer ângulo.

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Camona quarto do Robert’s Grove Inn!

Quando ir:  A temperatura oscila entre 20ºC e 30ºC quase todos os dias, pelo ano todo. Janeiro, Fevereiro, Março e Abril são a alta estação: o sol brilha e as água estão calmas, mas os preços sobem. Maio e Junho iniciam a baixa temporada. Em Julho e Agosto, as chuvas se intensificam e a ocupação volta a subir por causa das férias nos EUA. Agosto, Setembro, Outubro são a época em que os furacões podem aparecer. Novembro é uma época  de ótimo custo x benefício e, em Dezembro, o ciclo da alta estação é reiniciado.

Dinheiro: A moeda oficial do Belize é o Dólar Belizenho, que vale US$ 0,50 e não flutua. O dólar americano é amplamente aceito. Cartões de débito e crédito também são aceitos na maioria dos lugares, mas é bom andar com algum dinheiro no bolso para drinks na praia e mercado de rua. Leve alguns poucos dólares (US$ 50,00 devem ser suficientes) para pequenos gastos, como táxi do aeroporto ao hotel e, chegando no Aeroporto Internacional de Lima, saque moeda local no caixa eletrônico. É mais barato e prático que qualquer câmbio que se possa fazer.

Idioma: o Belize é um país verdadeiramente bilíngue. Inglês é o idioma oficial mas, pela proximidade com o México e os imigrantes de países vizinhos, todos falam ou pelo menos se comunicam em espanhol.

Nós visitamos o Belize a convite do BTB – Belize Tourism Board e da Copa Airlines, com apoio da GTA Assist.

Texto: Tiago Caramuru
Imagens: Tiago Caramuru
Edição: Tiago Caramuru / Anderson Spinelli

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Local: Belize
Sobre o Autor
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Desde que descobriu que viajar é possível, viciou. Muita disciplina financeira, um pouco de sorte. Nada como uma viagem após a outra. Escreve o blog Esvaziando a Mochila desde 2009. Publicou, em 2014, o trabalho fotográfico Rumo às Primeiras Mil Viagens, compilação de 100 retratos e paisagens feitos pelo mundo, durante quatro anos.